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As origens hermenêuticas do “feminismo evangélico” e a coerência dos pressupostos “complementaristas

Atualizado: 24 de Jul de 2019


Nos últimos anos, o papel da mulher, na igreja, vem passando por profundas mudanças. Tais mudanças estão levando denominações inteiras a entrarem em sérias controvérsias e profundas divisões. Atualmente, são tantos e tão diversos os argumentos propostos que não é raro encontrar pessoas extremamente confusas sobre essa questão. A razão de tamanha confusão é que um grande número de líderes de igrejas, em ambos os lados das “trincheiras”, está militando apenas com os sintomas desse problema e não com a causa.         

            O presente artigo tem por objetivo demonstrar as origens hermenêuticas do “feminismo evangélico” e destacar que o âmago dos problemas que a igreja enfrenta – em relação ao papel da mulher – é, antes de tudo, de caráter hermenêutico, ou seja, está relacionado com a forma ou com os pressupostos pelos quais o texto bíblico é interpretado.

            Isso será demonstrado por meio de uma sucinta[2]descrição dos dois pressupostos mais conhecidos sobre a questão, a saber: os pressupostos dos chamados igualitaristas e os dos chamados complementaristas. Após isso, será apresentada uma conclusão em favor da coerência do complementarismo em relação aos pressupotos do igualitarismo.

I – O pressuposto dos igualitaristas

          De um modo geral[3], os igualitaristas fazem uma leitura do relato da criação, baseada no pressuposto de que o Pentateuco não é de autoria mosaica. Antes, baseiam-se na Teoria das Fontes, iniciada na metade do século XVIII, por Jean Austruc que dizia ser o Pentateuco originário de duas fontes distintas, “Javista(J) e  Eloísta (E), devido à incidência de diferentes palavras hebraicas para referir-se a Deus”[4]. Mais tarde, essa teoria foi fomentada por alguns estudiosos e ganhou força sob a influência de J.H Welhausen, em sua obra ProlegomenaZurGschichteIsraeles,publicada em 1883, em que ao invés de atribuir a origem do Pentateuco a duas fontes, mencionava quatro, a saber:  Javista (J), Eloísta (E), Sacerdotal (P), e Deuteronômica (D). Dessa forma, acreditam os defensores da “Hipótese ou Teoria das Fontes” que o Pentateuco advém de quatro fontes distintas que foram compiladas no período pós-exílio excluindo assim, qualquer possibilidade da autoria mosaica[5].

         Em outras palavras, consideram o Pentateuco como uma colcha de retalhos escrita e costurada com a perspectiva de “vários autores”.

        Com essa perspectiva em mente, dizem que Gn 1:26-27 “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança … Criou, pois, Deus o homem sua imagem e semelhança, homem e mulher os criou” é o relato Eloísta (E), de igualdade entre o homem e a mulher. Ou seja, segundo eles, em Gn 1, Deus fez o homem e a mulher simultaneamente e iguais. Já com o advento do pecado, em Gn 3, uma das consequências, inclusive o castigo do pecado, foi a subordinação feminina ao homem. Em Gn 3:16 “Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez, em meio a dores dará à luz filhos o teu desejo será para o teu marido e ele te governará”. Assim, argumentam eles que Jesus Cristo veio a este mundo para livrar-nos das consequências e do castigo do pecado, e que agora, em Cristo, somos todos iguais. Concluem, geralmente, citando Gl 3:28 “dessarte, não pode haver judeu nem grego nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo”.

           Com base nessa interpretação, afirmam que na igreja de Cristo não pode haver qualquer distinção entre homens e mulheres, no que tange aos papéis e às funções na igreja.

          No entanto, quando os proponentes dessa posição são confrontados com Gênesis 2 – que afirma ter sido a mulher criada do homem e, em seguida, ao homem -, lançam mão, sem nenhuma reserva, da Teoria das Quatro Fontes, dizendo que Gênesis1 é de uma autoria e Gênesis 2, de outra. Observe, por exemplo, o que a doutora Elizabeth A. Johnson, adepta de tal teoria, diz: “O texto clássico da Bíblia que tem servido de base para a compreensão da mulher na visão patriarcal é o do relato da criação, da fonte Javista (J) … Enquanto o primeiro relato pode ser interpretado sob a visão de maior igualdade entre homem e mulher, … o segundo relato já no ato da criação da mulher acentua a desigualdade entre homem e mulher e a dependência desta em relação ao varão. No primeiro relato, homem e mulher são conjuntamente imagem de Deus, no segundo relato, a mulher parece ser indiretamente imagem de Deus no homem”[6].

         Com esses pressupostos em mente, alegam os Igualitaristas que a cultura bíblica é “androcêntrica”, “patriarcal” e que o objetivo da hermenêutica -especialmente feminista – é a despatriarcalização da Bíblia[7]. Afirmam, por exemplo, que os escritos de Paulo são permeados da influência “patriarcal” ou “machista” das Escrituras. “Embora Paulo tenha, em sua visão cristã, grande apreço pela mulher, comparando-a com a Igreja… ele não consegue superar os condicionamentos da cultura patriarcal que claramente estão presentes na Bíblia a partir do relato da criação da mulher e da queda dos primeiros homens”. [8]

          Como se pode observar, o pressuposto hermenêutico dos igualitaristas é muito dependente da não autoria mosaica e, por conseguinte, da Teoria das Fontes. Esse pressuposto afetará drasticamente a interpretação de todos os textos bíblicos que falam sobre o papel das mulheres, limitando os textos das Escrituras, que tratam destes assuntos, a meras expressões circunstanciais e culturais existentes naquela época; e que nada tem a ver para a realidade atual.      

II O pressuposto dos complementaristas

           O pressuposto dos complementaristas, ao contrário dos igualitaristas, não exclui a autoria mosaica para o Pentateuco e não depende, em nada, da Teoria das Fontes. Pelo contrário, os complementaristas insistem que Moisés foi o autor do Pentateuco e que Gênesis 2, ao invés de ter sido escrito por outra mão que não a de Moisés, é simplesmente uma extensão mais detalhada do que se diz em Gênesis, capítulo1[9].

           Os complementaristas acreditam dessa forma, lançando mão tão somente da coerência interna e da estrutura literária do próprio livro de Gênesis. Eles observam que o que marca a estrutura do livro é a expressão tôledôt (esta é a gênese…) que é um substantivo feminino de yálad, normalmente traduzido pelas palavras (gerações, histórias, descendentes ou esta é a história ou narrativa de…). Essa expressão “tôledôt” aparece nas principais divisões da história de Gênesis, de modo a demonstrar uma estrutura fluida e intencional do início ao fim do livro.[10]

           Os complementaristas, ainda, demonstram que a expressão “auxiliadora idônea”, de Gênesis 2:18,20, carrega a ideia de que a mulher corresponde ao homem e completa a solidão em que este se encontrava. Portanto, o relacionamento entre homem e mulher é de natureza complementar, visto que nenhum dos dois seria pleno sozinho.  Além do mais, os complementaristas enfatizam que, na maioria das vezes, a palavra “auxiliadora” aparece no Antigo Testamento e se refere ao auxílio que vem de Deus (Dt 33:29, Sl 121:1-2; Os 13:9 etc.). Nesse sentido, o texto de Gênesis sugere que a mulher é um auxílio vindo da parte de Deus, o que não seria, em hipótese alguma, pejorativo para a mulher.

         Em suma, os complementaristas entendem que o homem foi criado primeiro que a mulher com a ordem de cultivar o jardim. Por sua vez, a mulher foi criada posteriormente para viver num relacionamento, cujo homem e mulher se completam, e, dessa forma, refletem a imagem do Deus trino em seu relacionamento.

III A coerência do complementarismo em relação aos pressupostos do igualitarismo

          Como mencionado anteriormente, pretende-se, nesse artigo, apresentar a maior coerência dos pressupostos complementaristas em relação aos pressupostos igualitaristas, pelas seguintes razões:

1. Para que o igualitarismo funcione, ele precisa, via de regra, lançar mão de uma teoria – a das quatro fontes – desenvolvida apenas no século XVIII, carregada de pressupostos da teologia liberal iluminista. Precisa também ignorar, em medidas astronômicas, o testemunho interno e a estrutura literária da própria Bíblia. Isso por si somente, quando percebido, leva a “hermenêutica feminista” a um profundo descrédito.

2. É extremamente incoerente rejeitar a autoria de Moisés como autor do Pentateuco, uma vez que esta é afirmada pelos apóstolos e pelo próprio Jesus (Mt 19:4-8; Mc 12:26; At 3:22). Estariam os adeptos da Teoria das Fontes mais bem informados que os apóstolos e Jesus, no que diz respeito à autoria do Pentateuco e, em especial, à de Gênesis?

3. O que torna ainda o complementarismo mais coerente que o igualitarismo é o fato de que, no pressuposto complementarista, nenhuma manobra se faz necessária para demonstrar seu pensamento. Ou seja, estes se atêm ao testemunho e à estrutura do texto como uma narrativa única, sem a necessidade de mudar isso para adaptá-lo a algum interesse próprio. Será que se poderia dizer o mesmo dos pressupostos igualitaristas?[11]

O fato de o capítulo 1, de Gênesis, usar o nome Elohim para se referir a Deus, e Gênesis 2 usar Javé não sugere, em nenhuma hipótese, duas autorias para o texto! Os igualitaristas falham em perceber que usar vários nomes para referir-se a Deus poderia ser comum, uma vez que em todo Oriente Médio Antigo, divindades sumérias egípcias e cananitas eram designadas por dois ou mais nomes diferentes, sem qualquer sugestão de multiplicidade de autores em tais casos[12].

5. As frequentes acusações de “machismo” e “patriarcalismo” que os complementaristas recebem, não refletem, nem de perto, o tipo de relacionamento complementar descrito em Gênesis 1 e 2. Quando estes capítulos são estudados, de maneira exegética e séria, o interprete é conduzido a um elevado conceito supracultural do relacionamento entre homem e mulher.

               Diante das questões mencionadas, percebe-se a coerência bíblica do complementarismo em relação aos pressupostos do igualitarismo.

Conclusão

          Dessa forma, nota-se que muitas das discussões – acerca do papel da mulher na igreja – são de caráter superficial e apaixonado, sem levar em conta a raiz do problema.

          Este artigo tentou demonstrar que o papel da mulher, na igreja, não é uma questão de preferência pessoal, mas suas raízes estão firmadas nos pressupostos ou maneiras como a Bíblia é encarada. Esse aponta que os pressupostos dos igualitaristas são fundamentados, normalmente, em uma hermenêutica que parte do esforço de encaixar a leitura das Escrituras dentro do espírito do liberalismo do Século XVIII; que, via de regra, repudiava a inspiração proposicional e plenária das Escrituras. Por outro lado, os pressupostos dos complementaristas repousam sobre o testemunho interno das Escrituras, de que tanto Gênesis 1 como Gênesis 2 foram escritos por Moisés; e que o Capítulo 2, de Gênesis, simplesmente fornece mais detalhes da criação e dos papéis do homem e da mulher. Isso não exclui o fato de serem ambos iguais em valor, criados conforme a imagem e semelhança Deus, com funções distintas, porém complementares. Isso, além de ser supracultural, repousa com maior força na coerência, na estrutura e na linguagem do próprio texto, tornado o argumento complementarista, naturalmente, mais coerente com a Bíblia.

Daniel Gouvea


Daniel Gouvea é casado com Fabiana e pai de 2 filhas. É Th.M em teologia e exposição do NT e pastor da IBL Nacional em Brasília-DF. 

É ainda escritor do livro: A soberania de Deus na justificação.





















REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


Augustus Nicodemus Lopes, O culto Espiritual, 1ªEdição. Ed.Cultura Cristã.

Carlos Osvaldo Cardoso Pinto, Foco e Desenvolvimento do Velho Testamento, Ed. Hagnos.

Carlos Osvaldo Cardoso Pinto, Foco e Desenvolvimento do Novo Testamento, Ed.Hagnos

Craig G. Bartholomew, Michael W. Gohenn, O Drama das Escrituras: Encontrando nosso Lugar na História Bíblica, Ed. Vida Nova.

J. Evan, A mulher na Bíblia, Ed. ABU.

John Piper, Wayne Grudem, Homem e Mulher, Ed. Fiel.

John McArthur, Homens e Mulheres, Ed. Textus.

J. N. D. Kelly, I e II Timóteo e Tito, Introdução e Comentário, Ed Vida Nova.

Neil R. LiglhtFoot, O Papel da Mulher na Vida Cristã, Ed. Vida Cristã.

Raimond B. Dillard, TemperLogmam III, Introdução ao Antigo Testamento, Ed. Vida Nova 2006.

Ross P. Allen, The Bible Knowledge Commentary: Old Testament, Zondervan.

Stanley J. Grenz, A Mulher na Igreja, Ed. Candeia.

Teologia e Modernidade, 1a Edição, Ed. Fonte Editorial.

Walter Kaiser, Documentos do Antigo Testamento, Ed. Cultura Cristã.


[2] Para questões detalhadas sobre o assunto veja: Augustus Nicodemus Lopes, O culto Espiritual, 1ªEdição. Ed.Cultura Cristã 1999. J. Evan, A mulher na Bíblia, Ed ABU. John Piper, Wayne Grudem, Homem e Mulher, 1ª Edição. Ed Fiel 1996. John McArthur, Homens e Mulheres, 1ª Edição. Ed. Textus.


[3]Usa-se aqui a expressão “de um modo geral”, em vista do fato de que alguns igualitaristas não defendem necessariamente a Teoria das fontes. Entretanto, acreditam que passagens tais como 1Tm 2:11-15 lidam estritamente com a questão da igreja de Éfeso, não tendo paralelo com a igreja atual. Gordon Fee é um exemplo disso em seu livro: Gospel and Sprit: Issues in New Testament Hermeneutics, p. 70.



[4]COP, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento, p-22, Ed. Hagnos.


[5]Para maiores informações vija em: Dillard B. Raimond e LogmanTremper III, Introdução ao Antigo Testamento, pp.39-42, Ed. Vida Nova. Kaiser Walter, Documentos do Antigo Testamento, pp. 49-60, Ed. Cultura Cristã. COP, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento, pp.21-22, Ed. Hagnos.


[6]Elizabeth A. Johnson, A masculinidade de Cristo. Concilium 238-199/6,p.122-125, citado em: Teologia e Modernidade, Ed. Fonte Editorial, p. 206


[7]Martins Jaziel Guerreiro em Teologia e modernidade, Ed. Fonte Editorial, p. 208.


[8]Jaziel G. Martins, A Historical investigation of women’s position and their activities in the church between the first and fourth centuries, p.15


[9] Ross P.Allen, The Bible Knowledge Commentary: Old Testament, Zndervan, 1984.


[10]O livro de Gênesis é estruturado por dez “Tôledôts”.  O primeiro é: “Essa é a história do céu e da terra” (Gn 2:4-4:26). Os outros são: “Essa é a história da descendência de Adão” (Gn 5:1-6:8), “Essa é a história de Noé” (Gn 6:9-9:29), “Essa é a história de Sem, Cam, e Jafé (Gn 10:1-11:19), “Essa é a história de Sem” (Gn 11:10-26), “Essa é a história de Terá” (Gn 11:27-25:11), “Essa é a história do filho de Abraão, Ismael” (Gn 25:12-18), “Essa é a história do filho de Abraão, Isaque” (Gn 25:19-35:29), “Essa é a história de Esaú” (Gn 36:1-37:1), “Essa é a história de Jacó” (Gn 37:2-50:26). Craig G. Bartholomew e Michael Goheen, O Drama das Escrituras: Encontrando nosso lugar na História Bíblica, p. 48, Ed. Vida Nova.


[11]Sabe-se que grandes excessos podem ser vistos entre igualitaristas e complementaristas. Contudo, não é o propósito deste artigo avaliar essa questão. Para avaliar essa questão mais amplamente veja: https://bible.org/seriespage/biblical-gynecology-part-1


[12]COP, Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento, p. 22, Ed. Hagnos.

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Proverbios 31:26