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Série: TEOLOGIA E FAMÍLIA. Parte 2- Maldição hereditária: cristianismo ou paganismo?, por pr. Nelson



Um homem cristão (que venceu a tentação) em uma ocasião sentiu um tremendo desejo lascivo para com uma criancinha, sem razão aparente. Ele depois descobriu que seu bisavô era um voraz molestador de crianças, que abusou de suas próprias netas[1].

De onde veio o desejo lascivo desse homem? Para os mestres da teologia de maldição hereditária, esse desejo veio da maldição herdada do seu bisavô. Entretanto, para as Escrituras esse desejo é oriundo de um coração pecador, procurando desculpas para justificar o seu próprio pecado:

E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes, cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia.

Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem. (Rm 1.28-32).

No primeiro post da série Teologia e Família, sobre Maldição hereditária (Veja aqui: Cuidado com a Maldição), vimos que o conceito de maldição conforme ensinado pelos mestres dessa teologia não é bíblico. No Antigo Testamento, a maldição tem mais a ver com um estado de quebra da comunhão com Javé, por conta do rompimento com a aliança mosaica.

Diante disso, perguntamos: Se o conceito de maldição hereditária não é oriundo das Escrituras, de onde vem? De onde veio essa crença? Acredito que essa crença é oriunda do paganismo antigo. Para entendermos, precisamos voltar às civilizações antigas.

A Maldição nas culturas antigas

         Nas culturas antigas era ordinária a busca pelo sobrenatural quando os métodos naturais não tinham eficácia diante de suas necessidades. Essa busca pelo sobrenatural era conhecida como “magia”. A magia era “a exploração de poderes miraculosos ou ocultos, por métodos cuidadosamente especificados para atingir finalidades que doutro modo não podiam ser alcançadas.”[2] Para as culturas antigas, “o favor das divindades era obtido por meio de encantamentos e fetiches”.[3]. Sobre isso comenta Antônio Neves:

Desde tempos imemoriais se cultivava a magia. A ideia fetichista de que o mundo está povoado de maus e bons espíritos e que os maus podem ser propiciados por meio de oferendas, rezas e tantos outras invenções pagãs, oferecia vasto campo a explorações nas crendices populares. Todos os povos palestinos eram dados a essas práticas, mesmo que não sejam considerados propriamente povo fetichista, mas apenas idólatras.[4]

Lothar Coenen também fala da seguinte forma:

No pensamento da antigüidade, a palavra tem poder intrínseco que é liberado pelo ato de pronunciá-la, e independente deste ato. A pessoa amaldiçoada é assim exposta a uma esfera de poder destrutivo. A maldição opera de modo eficaz contra a pessoa execrada, até que se esgote o poder inerente na maldição.[5]

Egito

No Egito, a magia era efetivada através de rituais que representavam o resultado desejado; i, é, se o mágico quisesse destruir o inimigo, ele faria uma imagem de cera de seu inimigo e, em ritual, destruiria o boneco. A magia também era efetivada através de pronunciamentos de palavras que eram tidas como eficazes para a efetivação do encantamento. Em geral, a magia era utilizada para beneficiar os vivos e os mortos.

Na pirâmide de Sakkarah temos um exemplo da crença dos antigos egípcios em maldições. Esta pirâmide era do faraó Unis (século 25 a.C). O deus da terra Geb é citado como a autoridade para impedir que os mortais abusem do nome do rei falecido. O túmulo era a “casa da eternidade” de um homem, e os infratores de um túmulo eram ameaçados com um julgamento após a morte. A seguinte advertência aparece no túmulo de Sakkarah:

Quanto a qualquer nobre, qualquer oficial ou qualquer homem que rasgue qualquer pedra ou qualquer tijolo deste túmulo, serei julgado com ele pelo grande deus, eu tomarei seu pescoço como um pássaro, e farei com que todos os vivos que estão na Terra tenham medo dos espíritos que estão no Ocidente, os que ainda estão longe deles[6].

Um outro escrito do Egito Antigo mostra a crença desse povo em maldição. O reinado de Ramsés II vivia em hostilidade contra o povo Hitita. No entanto, pelo vigésimo primeiro ano deste faraó (cerca de 1280 aC), ambos os poderes estavam prontos para concluir um tratado, para que eles voltassem a atenção para outros problemas, como as invasões dos “Povos do Mar”. Os termos finais desse tratado são curiosos. Ele lança uma maldição sobre quem quebrar os termos:

Quanto a estas palavras que estão nesta mesa de prata da terra de Hatti e da terra do Egito, como para aquele que não os guardar, mil deuses da terra de Hatti, juntamente com mil deuses da terra do Egito destruirão sua casa, sua terra e seus servos[7].

Medos e Persas

Os povos mesopotâmicos acreditavam em maldições. O famoso Código de Hamurabi é um conjunto de leis criadas na Mesopotâmia, por volta do século XVIII a.C, pelo rei Hamurabi da primeira dinastia babilônica. Nesse código encontra-se a advertência para aqueles que quebram as leis:

Quanto a esse homem, seja o rei ou o senhor, ou governador ou pessoa de qualquer categoria,

Poderoso Anum, pai dos deuses, que proclamou meu reinado,

Priva-o da glória da soberania,

Que ele quebre seu cetro, que ele amaldiçoe seu destino!

Mai Enlil, o senhor, o determinante dos destinos,

Cujas ordens não podem ser alteradas,

Que fez meu reino ótimo

Incite revoltas contra ele na sua morada que não pode ser suprimida,

Infortúnio que leve à sua ruína!

Que ele determine como o destino dele um reinado de “ai”,

Dias poucos em número, anos de fome,

Escuridão sem luz, morte súbita!

Que ele ordene com sua palavra contundente a destruição de sua cidade,

A dispersão de seu povo, a transferência de seu reino,

O desaparecimento de seu nome e memória da terra![8]

Os medos e persas também tinham elementos de magia em sua cultura e, principalmente, em sua religião oficial. Sua magia originou-se, principalmente, dos sumérios de 3.000 a.C. O Zoroastrismo é uma religião de origem persa. Interessante notar (a fim de ressaltar o envolvimento desta cultura nas artes mágicas) que os sacerdotes do zoroastrismo são chamados de “magi” e esta é a origem da palavra portuguesa “mágica”. Esta mágica era praticada com o mesmo sentido que era praticada no Egito. Ela visava os interesses tanto dos vivos como dos mortos. Como no caso do Egito, a magia era praticada por sacerdotes eruditos.

Civilização Hindu

A civilização hindu surgiu por volta de 1500 a 800 a.C. Sua religião era marcada pelas práticas mágicas bastante numerosas. Também era marcada pelo panteísmo, onde a divindade ficava à disposição do homem que pode manipulá-la através do sacrifício ou devoção. A magia nesta civilização era comum. Ela envolvia todos os aspectos da vida: saúde, trabalho, sexo, etc. Suas principais maneiras de se fazer magia são alistadas por André Aymard e Jean Auboyer:

Fórmula murmurada (mantra), as transferências dos problemas humanos para objetos ou animais, enfim, encantos e amuletos que devem assegurar a longa vida, curar ou combater as doenças, afastar as más influências, banir os aborrecimentos e sofrimentos, conquistar o amor do ser amado etc.[9]

Os Gregos e Romanos

A civilização greco-romana possuía um panteão complexo de deuses. Esses deuses viviam as venturas e desventuras humanas, tinham virtudes e vicissitudes compartilhadas com os mortais. O interessante para o nosso estudo é que os contos greco-romanos míticos estão repletos de relatos de maldições.

Um desses relatos é o famoso mito do Minotauro. O curioso é que esta criatura metade homem e metade boi é fruto de uma maldição! De acordo com o mito, Minos pediu a Posseidon o reinado de Creta. A condição imposta por Poseidon é que este enviaria a Minos um touro que deveria ser sacrificado. Minos, invés de sacrificar o touro, sacrificou um outro de menor qualidade e espera que Poseidon não notasse a diferença. Mas Poseidon percebeu que fora enganado e decidiu castigar Minos. A Maldição seria que a mulher de Minos, Pasífa, se apaixonaria pelo touro. Dessa união nasceu o Minotauro.

Um outro mito muito interessante é o das Eríneas, ou Fúrias. Estas eram três: Megera, Tisífone e Alecto. Eram “divindades infernais do ódio, da vingança e da justiça”[10].  No julgamento de Orestes, Megera grita: “Malditos todos aqueles que tomarem o partido deste cão odioso”[11]. O curioso ainda é que essas divindades podiam ser convocadas a partir da maldição lançada por alguém que clamava por vingança.

Assim, o conceito de maldição é muito presente na cultura greco-romana que entendia este conceito de maneira mecânica, onde os deuses poderiam ser manipulados por precações e fórmulas mágicas.

Para estes povos, a maldição era um desejo exteriorizado em forma de palavras ou, até mesmo, de ritos; estas palavras e ritos, segundo se pensava, tinham o poder intrínseco de realizar o desejo expresso. Sobre isso comenta Mary J. Evans:

Na Mesopotâmia, parece que aquela vida foi dominada lidando com o terror de maldições e agouros. Estas maldições eram invocadas por indivíduos e a sensação é que os deuses não podiam escolher não agir. A pessoa tinha a impressão que a maldição age totalmente independentemente da relação entre o indivíduo e os deuses dele.[12]

Existe um registro bíblico dessa crença antiga, que é o relato de Balaão e Balaque (Nm 22,23). Balaque era um rei Moabita que contratou Balaão para amaldiçoar Israel. As palavras de Balaque expressam sua crença no poder intrínseco das palavras em trazer benefícios ou malefícios ao seu objeto:

Vem, pois, agora, rogo-te, amaldiçoa-me este povo, pois é mais poderoso do que eu; para ver se o poderei ferir e lançar fora da terra, porque sei que a quem tu abençoares será abençoado, e a quem tu amaldiçoares será amaldiçoado. (Nm 22:6).

Já vimos que a palavra hebraica usada por Balaque foi “qäbab”, que exprime a ideia de pronunciar uma fórmula com o propósito de trazer malefícios ao seu alvo. Isto ilustra, como diz Russel Shedd, “a crença popular que o próprio fato de um profeta prenunciar algo traria o efeito profetizado.”[13]

Dessa forma, pode-se perceber que a crença em maldição hereditária não pertence ao ensino das Escrituras, mas aos povos idólatras do tempo do Antigo Israel.

Brasil

O Brasil de nossos dias é um amálgama de crenças, um sincretismo de cristianismo e crenças africanas, resultante dos tempos da colonização. Precisamos lembrar que mesmo o cristianismo que foi importado, não era inteiramente bíblico, mesmo na perspectiva católica. “A catequese para o negro foi sumária, distraída, desinteressada das reais conquistas da alma[14]”. Nas palavras de Gilberto Freyre, “soubesse rezar o padre nosso e a ave Maria, dizer creio-em-deus-padre fazer o pelo-sinal-da-santa-cruz – e o estranho era bem-vindo no Brasil colonial”[15].

Assim, as primitivas crenças dos povos antigos foram adaptadas às doutrinas cristãs, impregnando à teologia popular: votos, almas penadas, cumprimento de promessas e maldições. É fundamentado nisso que o Bispo Macedo afirmou: “O Brasil é um grande terreiro de macumba. E nós temos trabalhado exatamente em cima da experiência do brasileiro.”[16]

Estudioso da cultura brasileira, Câmara Cascudo, em seu livro “Superstição no Brasil”, menciona algumas expressões populares que revelam a crença em maldições: “Que morras de sede dentro d’água! Que não tenhas a quem abençoar! Urubu há de comer tua carniça, Excomungado!”[17].

Nesse conjunto de crenças populares ainda há espaço para a crença de que o “nome” é uma potência mágica. Sua enunciação, intencional e veemente tem o poder de fazer valer o rogo. Também deve-se prestar atenção ao jeito e a hora para a eficiência das pragas.

É nesse contexto cultural que a teologia da maldição hereditária, importada dos EUA, tem tanto apreço em terras tupiniquins.

Todavia, não encontra respaldo Bíblico. A crença no poder autônomo das imprecações respaldadas por espíritos tem mais a ver com as nações vizinhas de Israel e não era compartilhada pelos homens de Deus. Não se encontra um texto sequer nas Escrituras onde descreva que mantras, o recitar de nomes, objetos mágicos, podem lograr êxito na efetivação de maldições.

Sobre isso, o dicionário Internacional de Teologia do Antigo testamento é feliz em comentar:

Que tais fórmulas existiram por todo o mundo antigo ninguém nega. Mas a diferença entre elas e as do AT são adequadamente ilustradas nesta citação de Fensham: ‘A execução mágica e mecânica da maldição […] aparece em tremendo contraste com a abordagem egoteológica dos escritos proféticos […] o ego do Senhor é o elemento central da ameaça, e execução e a punição de uma maldição. […] As maldições do antigo Oriente Próximo, que aparecem fora do AT, são dirigidas contra a transgressão da propriedade privada […] mas a obrigação ético-moral relacionada com o dever que se tem perante Deus de amar ao próximo não é sequer mencionada[18].

Sendo assim, talvez sua vida seja marcada pelo medo oriundo de uma suposta maldição que alguém lançou sobre você. Talvez exista um pecado que seu filho esteja lutando e não consegue abandonar e alguém lhe disse que você tem que quebrar a maldição que veio dos antepassados. Pode ser que você lute com um vício do seu marido e o que lhe vem na cabeça é que existe uma maldição que foi jogada sobre ele. Meu caro leitor, essa crença não tem respaldo bíblico. Pertence ao folclore evangélico brasileiro, ao paganismo!

No próximo post vamos tratar do conceito de “Espíritos familiares”, dentro dessa temática de maldição hereditária, e de como a carta de Paulo aos Gálatas nos fala sobre o verdadeiro conceito bíblico de maldição e a forma correta de lidar com ela.


Pr. Nelson Galvão


Sola Scriptura


[1]História extraída de Ricardo Mariano. Neopentecostais. p. 140


[2]J. D. Douglas – O Novo dicionário da Bíblia – p. 978


[3]Carlos Oswaldo Pinto. História do Oriente Médio Antigo. Obra não publicada. p. 25


[4]Antônio Neves de Mesquita. Estudo nos livros de Números e Deuteronômio – p. 66


[5]Lothar Coenen. Dicionário de Teologia do Novo Testamento. p. 184


[6] PRITCHARD, James B. (Ed.). Ancient Near Eastern Texts.  Princeton: Princeton University. p. 614.


[7] Ibid, p. 397


[8] Ibid, p. 381


[9] AYMARD et al. O oriente e a Grécia Antiga. p. 241


[10]Franchini, A. S & Carmen Seganfredo. As 100 melhores histórias da mitologia. p. 250.


[11] Ibid.


[12] Mary J. Evans. “A plague on both your houses” cursing and blessing reviewed. p. 4


[13] Russel Shedd – Bíblia Shedd – p. 224


[14]Câmara Cascudo. Superstições no Brasil. p. 345.


[15]Gilberto Freire. Casa Grande e Senzala. p. 66.


[16]Ricardo Mariano. Neopentecostais. p. 136.


[17] Câmara Cascudo. Superstições no Brasil. p. 477.

[18] HARRIS et al. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. p. 127






Nelson é casado com Simone desde 1997 e eles têm um filho. Ele é formado em História e Teologia, pós-graduado em Administração Escolar e mestre em Educação (PUC-SP). Atualmente faz mestrado em Teologia do Novo Testamento no Seminário Bíblico Palavra da Vida- Atibaia, SP. 

É pastor interino da Igreja Batista Sião (São José dos Campos-SP) e atua como diretor acadêmico do ministério Pregue a Palavra. 

Atua ainda como coordenador do grupo do Pregue a Palavra de Cuba e como professor convidado da Escola de Pastores PIBA.

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Proverbios 31:26