• Equipe Mulher da Palavra

Eu sinto remorso ou arrependimento? por Bianca Bonassi Ribeiro


O objetivo desse artigo é produzir uma autoanálise em cada pessoa que professa ser um cristão convertido. Há algum tempo tenho sentido a necessidade de escrever sobre esse tema, que é um  assunto muito importante em nossa “Era da Graça[1]”.

Em primeiro lugar, vale ressaltar que ser um cristão convertido envolve algumas etapas definidas pelo próprio Senhor Jesus Cristo:

1. Crer que Jesus é o Filho Unigênito de Deus, que veio ao mundo encarnado (Jo 3.16 e 12.28; Mt 3.17 e 17.5; Mc 1.11 e 9.7; Lc 3.22 e 9.35; 2Pe 1.17; Hb 1.5-6 e 5.5);

2. Crer que Jesus Cristo tomou o meu pecado e pagou o preço que eu deveria ter pago, ou seja, Ele morreu na cruz, para me salvar do inferno (Mt 16.21 e 27.35-50; Mc 15. 21-38; Lc 9.22; 23.26-47; Jo 19.16-30). Isso é Graça e não foi de graça, custou um alto preço, o sangue de Jesus (Rm 3. 22-26);

3. Crer que Jesus ressuscitou dentre os mortos (Mt 28.1-10; Mc 16.1-20; Lc 24.1-12; Jo 20.1-9).

Talvez, você esteja pensando, tudo bem eu acredito em tudo isso, logo sou um salvo. No entanto, essa certeza deve nos conduzir para uma nova vida, uma conversão. Nesse contexto, precisamos compreender que conversão é arrependimento, que por sua vez é diferente de remorso. Infelizmente, no meio cristão há muitas pessoas lutando com o remorso ao invés de desfrutar uma vida constante de arrependimento e conversão.

O que é remorso

Em primeiro lugar vamos entender o que é remorso, para depois estudarmos o arrependimento e assim, crescermos em santidade. Remorso, é uma palavra oriunda do Latim (remorsum[2]), ligada ao  vocábulo remordimento, cujo verbo é remorder (voltar a morder). Trata-se de uma ação repetitiva. Do latim para o português, a palavra remorso herdou o sentido de dor na consciência a partir do reconhecimento do erro. Esse sentimento “morde” o mesmo lugar sensível na mente de forma repetitiva.  Sendo assim, o remorso se manifesta em dois comportamentos distintos:

a) produz o sentimento de culpa, onde o indivíduo permanece repetindo o erro e consequentemente alimentando o remorso. Esse comportamento cíclico vicioso é mantido até que seja rompido. Infelizmente, há muitos cristãos que estão imersos num mar de remorso;

b) produz o autocastigo, em que a pessoa busca se punir, castigar-se a partir de um sofrimento repetitivo e compulsivo que pode levar a morte. Essa é a faceta menos comum entre os cristãos.

Notamos que o remorso não produz uma mudança de comportamento, ele simplesmente atua como um indicador entre o certo e o errado. Ele nasce na consciência de acordo com os valores nela alojados.

O remorso na Bíblia

Na Bíblia, existem alguns exemplos de pessoas que sofreram com o remorso. O primeiro que gostaria de citar refere-se ao remorso manifestado em sentimento de culpa. Na passagem que relata o jovem rico (Mc 10.17-27; Mt 19. 16-26 e Lc 18. 18-27) há um jovem importante que vai até Jesus e pergunta o que é necessário para herdar a vida eterna. A resposta de Jesus, primeiro faz referência a seis dos dez mandamentos, os quais estão vinculados a boas obras. O jovem muito seguro de si, responde que tem cumprido tudo desde a adolescência e então, Jesus pede a ele que venda tudo o que possui e que distribua o dinheiro aos pobres, para que depois pudesse seguir a Jesus. Foi então que o remorso surgiu, o jovem ficou abatido e afastou-se triste (Mc 10.22). Quando Jesus pede ao jovem rico que venda tudo e distribua aos pobres ele afirma duas coisas. Primeiro, a salvação não é por obras e sim um dom de Deus, para que ninguém se glorie (Ef 2.8-9) e segundo, que o coração daquele jovem não estava disposto a cumprir o primeiro mandamento, amar a Deus de todo o coração, de toda alma e de todo entendimento (Mt 22. 37-38). O problema não estava em ser rico, mas  em não estar disposto a começar uma nova vida com Deus. Por essa razão, o jovem rico sentiu o remorso, manifesto em sentimento de culpa e por isso saiu triste e abatido, mas o ciclo não foi rompido, ele voltaria a ser alguém que conhecia os mandamentos e até cumpria alguns, mas não estava disposto a arrepender-se e converter-se.

No que se refere ao autocastigo, a Bíblia nos mostra outro exemplo. Judas Iscariotes ao perceber que havia pecado foi em busca do suicídio. Ele foi um dos doze discípulos de Jesus (Mt 10.4; Mc 3.19; Lc 6.16), isso significa que Judas Iscariotes tinha acompanhado a maior parte do tempo ministerial de Jesus aqui na Terra, algo em torno de 3 anos, ele também teve o privilégio de ver os sinais e maravilhas realizados por Jesus Cristo, assim como a imensa disposição de Jesus em perdoar todo aquele que se arrependesse e o seguisse, no entanto, Judas Iscariotes é lembrado como aquele que traiu a Jesus. Dois dias antes do início da festa da Páscoa, os chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos do povo (Israelitas) se reuniram no palácio do sumo sacerdote  (Caifás) e juntos planejaram prender Jesus à traição e matá-lo (Mt 26. 1-4 e 47-50; Jo 11. 46-53; Lc 22.1-6). Então, um dos Doze (Judas Iscariotes) dirigiu-se aos chefes dos sacerdotes e perguntou o que eles o dariam se ele os entregasse Jesus, o preço combinado pela traição foram 30 moedas de prata (Mt 26. 14-16; Mc 14.10-11 e 43-45; Lc 22. 3-6 e 47-48; Jo 18.2-3). “Quando Judas, que o havia traído, viu que Jesus fora condenado, foi tomado de remorso e devolveu ao chefe dos sacerdotes e aos líderes religiosos as trinta moedas de prata. E disse: Pequei, pois traí sangue inocente” (Mt 27. 3-4a). O remorso de Judas fez com que ele percebesse o erro e por iniciativa própria ele tentou se punir, primeiro devolveu o dinheiro, motivo pelo qual traiu Jesus, em seguida suicidou-se como autocastigo final, na tentativa de se livrar do remorso. Apesar de Judas se autopunir percebemos que seus esforços foram em vão.

Esses dois exemplos bíblicos nos dão evidências de que a presença constante na vida de um cristão não deve ser o remorso, seja ele em sentimento de culpa ou em autocastigo e sim, do arrependimento. Mas, afinal, o que é arrepender-se?

O que é arrependimento

Embora essa palavra esteja no cotidiano da maioria dos brasileiros, poucos de fato entendem o seu significado e sentido. De acordo com os dicionários da Língua Portuguesa (Priberam[3]e Michaelis[4]), o verbo arrepender-se está ligado etimologicamente ao latim [ar]repoeniteri e significa não estar satisfeito com; estar descontente com; lamentar por algo feito ou não feito; mudar de intenção ou ideia; lamentar atitudes ou procedimentos defendidos ou praticados no passado. Não muito diferente do conceito secular, arrependimento, no Dicionário Ilustrado da Bíblia [5] refere-se ao ato de afastar-se do pecado, da desobediência e da rebeldia, voltando-se para Deus. Trata-se de um comportamento constante e crescente e está intimamente ligado à mudança de atitude. Daí o vínculo com o termo conversão, ou seja, tomar uma direção totalmente oposta e isso não acontece uma única vez. O arrependimento genuíno conduz o indivíduo a uma mudança vital em seu relacionamento diário com Deus.

Tem sido muito comum a confusão quanto ao verdadeiro sentido do arrependimento. Cristãos e pregadores proclamam: “você precisa se arrepender dos seus pecados e aceitar a Jesus como seu único Salvador” e isso pode causar a impressão de que arrepender-se ocorre uma única vez na vida. O fato é que arrepender-se é um ato constante e permanente que nos proporciona nova vida e intimidade com Deus. Arrepender-se não se resume numa oração no final do dia pedindo perdão a Deus pelos pecados cometidos e no dia seguinte continuar a cometê-los em mesmo grau e medida.

O arrependimento na Bíblia

Para ilustrar o real significado de arrependimento vamos olhar para outros personagens bíblicos. O primeiro que gostaria de citar é Zaqueu, o chefe dos publicanos de sua região. (Lc 19.2). Os publicanos eram homens ricos, responsáveis por fazer a coleta dos impostos nas áreas onde habitavam, em nome do Império Romano. Normalmente eram classificados como “pecadores”, pois tinham permissão para coletar mais do que o governo exigia e esse excedente dava origem às riquezas pessoais desses publicanos[6]. Quando Jesus entrou em Jericó, Zaqueu, ficou curioso para saber quem era Jesus, mas como tinha baixa estatura e havia muita gente, ele correu adiante e subiu numa árvore, que estava no caminho por onde Jesus passaria. “Quando Jesus chegou àquele lugar, olhou para cima e lhe disse: Zaqueu, desça depressa. Quero ficar em sua casa hoje. Então ele desceu rapidamente e o recebeu com alegria” (Lc 19.5-6, ênfase acrescentada). Notamos que a obediência de Zaqueu teve início imediato (desça depressa: ele desceu rapidamente). Enquanto Jesus estava na casa de Zaqueu, algo transformou a vida desse pequeno homem que se levantou e disse: “Olha, Senhor! Estou dando a metade dos meus bens aos pobres; e se de alguém extorqui alguma coisa, devolverei quatro vezes mais” (Lc 19.8b). Ao contrário do jovem rico, aqui Jesus não pediu para Zaqueu se desfazer e doar a sua riqueza, esse ato foi algo espontâneo na vida de Zaqueu. Esse pequeno homem se arrependeu de seu pecado da cobiça e enriquecimento ilícito e imediatamente fez uma conversão na direção oposta, rumo a uma nova vida com Jesus, o Senhor de sua vida. Embora a bíblia não nos fale o que aconteceu com Zaqueu, podemos acreditar que ele seguiu em sua profissão, porém, sem cobrar nada além do que era estipulado como imposto, pelo Império Romano (cfme. Lc 3.13b). O arrependimento de Zaqueu foi genuíno uma vez que Jesus disse: “Hoje houve salvação nesta casa! Porque este homem também é filho de Abraão. Pois o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19. 9-10).

O exemplo de arrependimento de Zaqueu nos conduz a mais um tipo de arrependimento, aquele que todos os salvos por Jesus devem buscar, pois trata-se do arrependimento constante. A Bíblia nos deixa mais uma história de vida nesse tema. O personagem agora é Simão Pedro, homem simples, que passou de pescador de peixe a pescador de homens e que ao ouvir a mensagem de Jesus e o chamado a segui-lo, obedeceu imediatamente (Mt 4.18-20; Mc 1.16-20; Lc 5.1-11).

Na trajetória de Pedro vemos o crescimento espiritual decorrente do arrependimento constante e ao mesmo tempo, nos proporciona um encorajamento à obediência e dependência em nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Dentre os vários momentos de altos e baixos na vida desse homem de Deus, vale ressaltar dois em particular, como exemplos de arrependimento constante. O primeiro ocorre no início de sua jornada cristã e sem dúvida, o mais conhecido. Pedro nega a Jesus três vezes e se arrepende (Mt 26.69-75; Mc 14.66-72; Lc 22.54-62; Jo 18.15-18 e 25-27). Pedro era um seguidor de Jesus, discípulo fiel, mas humano. Depois que Jesus foi preso e levado ao Sinédrio para ser interrogado, Pedro o seguiu e ficou no pátio aguardando o desfecho da prisão de seu líder. Durante esse período de tensão, Pedro foi reconhecido por algumas pessoas como sendo um dos seus seguidores. A cada vez que era apontado como um dos que estavam com Jesus, ele o negava e consequentemente se irava. Na terceira vez, Pedro estava tão irado que começou a se amaldiçoar e a jurar: “Não conheço esse homem! (Mt 26.74a; Mc 14.71). Em seguida o galo cantou e Pedro, lembrou-se das palavras de Jesus e, saindo dali chorou amargamente (Mt 26.75; Mc 14.72; Lc 22.61-62). Porém, o resultado desse choro amargo foi a transformação de comportamento, quando continuamos a estudar a vida de Pedro, notamos que daquele momento em diante houve um crescimento espiritual em sua vida. Isso porque ele não se deixou dominar pelo temor a homens e não mais negou a Jesus. Ao contrário, em plena época de perseguição aos cristãos, Pedro, se tornou líder dos apóstolos de Cristo, um grande evangelista (At 2. 14-40) e autor de dois livros da Bíblia (1 e 2 Pedro).

A trajetória de crescimento espiritual de Pedro só foi possível porque ele desenvolveu uma dependência em Jesus, onde o arrependimento constante é incessante. O segundo episódio de pecado e arrependimento, na vida de Pedro, comprova que um grande homem de Deus lutou com a fraqueza da carne e foi humilde ao ser repreendido publicamente por outro apóstolo (Paulo). 

Durante uma das viagens missionárias dos discípulos, na cidade de Antioquia, enquanto Pedro participava de uma refeição com gentios convertidos, chegaram ali alguns judeus que defendiam a prática judaica de não poderem partilhar sua refeição na mesma mesa que um gentio. Um ritual preconceituoso que está na contramão de amor ao próximo. No entanto, Pedro se deixou levar por esses judaizantes e afastou-se dos gentios convertidos, portanto ele cometeu acepção de pessoas. O apóstolo Paulo, ao ver essa atitude pecaminosa em Pedro, repreendeu-o publicamente (Gl 2.11-16). O resultado do arrependimento constante foi deixado nos livros escritos por Pedro e alguns destaques importantes são: “Como filhos obedientes, não se deixem amoldar pelos maus desejos de outrora quando viviam na ignorância. Pois vocês sabem que não foi por meio de coisas perecíveis como prata ou ouro que vocês foram redimidos da sua maneira vazia de viver, transmitida por seus antepassados, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha e sem defeito. Portanto, uma vez que Cristo sofreu corporalmente, armem-se também do mesmo pensamento, pois aquele que sofreu em seu corporompeu com o pecado, para que, no tempo que lhe resta, não viva mais para satisfazer os maus desejos humanos, mas sim para fazer a vontade de Deus.” (I Pe 1. 14, 18, 19 e 4. 1-2 – grifo meu).

A vida de Pedro cresceu em conhecimento e intimidade com Deus. Ele estava constantemente “aparando as arestas” de sua maneira de viver. Nós também podemos desenvolver uma vida de arrependimento ao invés de remorso. Porque está escrito: “Portanto, não permitam que o pecado continue dominando o corpo mortal de vocês, fazendo que obedeçam aos seus desejos (Rm 6.12)”. Para isso é necessário que nos esforcemos para não pecar e nos convertermos, nós conseguimos isso a partir da meditação diária na Palavra de Deus.

Por fim, termino essa meditação com um trecho de uma carta de Paulo e Timóteo aos cristãos em Filipos: “Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcança-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus (Fp 3.12)”. Amém!

Bianca Bonassi Ribeiro

Revisado por: Ieda Caricari Cipriani

[1]Período iniciado após a primeira vinda de Cristo, especialmente após a morte e ressurreição de Jesus.

[2]Dicionário etimológico. Etimologia e origem das palavras. Disponível em: acesso em 11 de maio de 2017.

[3]Dicionário Priberam. Disponível em: <https://www.priberam.pt/dlpo/arrepender-se> acesso em 16 de maio de 2017.

[4]Dicionário Michaelis. Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=arrepender> acesso em 16 de maio de 2017.

[5]YOUNGBLOOD, R.F.; BRUCE, F.F.; HARRISON, R.K. Dicionário Ilustrado da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 136.

[6]YOUNGBLOOD, R.F.; BRUCE, F.F.; HARRISON, R.K. Dicionário Ilustrado da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 310.


Bianca é casada com Luciano. Eles têm dois filhos, o Pedro e o Vitor. Ela faz parte da equipe docente da Universidade Presbiteriana Mackenzie-SP, desde 2007 e é membro da Primeira Igreja Batista de Atibaia. Bianca é doutora em Comunicação e Semiótica, mestre em Administração e graduada em Administração de Empresas.



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Proverbios 31:26